Efeito “Charles Xavier”

Recentemente, pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos EUA, divulgaram os resultados de um estudo em que voluntários conseguiram pilotar um simulador de helicóptero em 3D sem mover um músculo. Eles apenas pensaram nos comandos e os sinais foram enviados ao computador via eletrodos presos em suas cabeças. Este trabalho comprova que já é possível desenvolver aparelhos voltados para pessoas com dificuldade em mover o próprio corpo. Elas só vão precisar da própria atividade neuronal para operar os mais variados equipamentos. Porém, esse mesmo tipo de tecnologia pode ser usado para ler pensamentos. E, em pouco tempo, aparelhos com essa função já devem chegar ao mercado.

Pelo menos dois trabalhos demonstraram a eficiência de uma máquina de ler pensamentos, o espectroscópio de raios infravermelhos. Em estudo conduzido pela Universidade da Califórnia, foi possível reconstruir com imagens coloridas as lembranças de uma pessoa acordada. Em outro, da Universidade de Princeton, também nos EUA, a máquina se mostrou capaz de identificar os temas em que os voluntários estavam pensando. Também já existem aparelhos que, mais que ler nosso pensamento, são capazes de influenciá-lo. Em um teste feito com um scanner cerebral no Instituto Max Planck de Psiquiatria, na Alemanha, um voluntário que tem o chamado sonho lúcido (em que se tem consciência de que se está sonhando) seguiu comandos da máquina enviados para sua mente.

É incrível que tenhamos alcançado este nível de compreensão do nosso cérebro. Afinal, durante muitos séculos, a ciência acreditou que nele residia nosso próprio limite: como seria possível um órgão ser usado para entender a si mesmo? Pois agora é. E as consequências sociais e políticas deste avanço são assustadoras.

No limite, a capacidade de ler o que as pessoas estão pensando inviabiliza qualquer tipo de relacionamento interpessoal da forma como o concebemos hoje. Não há casamento, amizade ou relação de trabalho no estilo atual que suporte tamanha sinceridade. Mas, de uma forma ou outra, ainda poderíamos reaprender a nos relacionar. O impacto mais dramático do uso dessas máquinas seria no cenário político.

Qualquer governo com acesso aos pensamentos de seus cidadãos passa a deter um poder virtualmente ilimitado. Se o cenário descrito em 1984, romance de George Orwell que previa um futuro de controle total, só dependia de câmeras instaladas em todos os lugares, imagine o que a transparência completa do pensamento das pessoas possibilitaria.

Como os cientistas que desenvolveram a bomba atômica, pesquisadores que trabalham nas técnicas de leitura da mente precisam pensar no impacto de seus estudos. É fundamental que a sociedade tenha condições de decidir se eles deveriam se concretizar ou se essas máquinas deveriam se restringir a socorrer paraplégicos ou pessoas em coma.

Extraído de RevistaGalileu

Wanessa Castro

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